Trilha do Vale do Pati - BA

Saímos de Salvador em direção a cidade de Palmeira de ônibus, pela empresa Real Expresso, às 23h do dia 06/07/2018. São 460km de estrada, uma viagem longa, com uma parada para lanchar em Itaberaba, cidade conhecida por ser o "portal da chapada". Em Palmeiras, combinamos de reunir com o resto do grupo, a nossa guia Moniquinha e, seguir todos em um transporte fretado até a cidade de Guiné, ponto inicial da trilha para o Vale do Pati.

Um pouco sobre a região do Vale do Pati: No início do século, o café era a atividade econômica que movimentava o Vale. Relatam antigos moradores que cerca de duas mil pessoas viveram por lá. Com o declínio do café, muitas das pessoas abandonaram o local e foram viver em outras cidades da região e do país. Com o avanço do turismo nas últimas décadas, as poucas famílias que ainda residem no vale, utilizam suas casas como hospedaria e oferecem alimentação para os viajantes, que se interessam cada vez mais pela região, tamanha é a beleza e a imersão com a natureza que o local proporciona.

Hoje a maioria das casas no vale já possuem energia solar, o suficiente para refrigerar os alimentos, para a iluminação básica do local e para carregar alguns aparelhos elétricos. Não existe televisão, rede wi-fi ou internet, as notícias chegam com os ventos, ou pelos que viajam em suas terras, seja para levar suprimentos (com a ajuda de mulas), seja para se inspirar em uma experiência única de autoconhecimento.

Chegamos em Palmeiras por volta das 06:30 da manhã do dia 07/07/2018. Da rodoviária de Palmeiras seguimos caminhando para o Hi Hostel, local marcado para reunir o grupo. Pagando um valor diferenciado é possível utilizar alguns serviços do Hostel, o que otimiza bastante o tempo. Tivemos uma boa base como estrutura, tomamos o café da manhã, um banho e organizamos os equipamentos para a trilha, enquanto esperávamos o carro fretado chegar para sairmos.

Saímos de Palmeira em direção a Guiné por volta das 08:30h da manhã, a viagem tem em torno de uma hora e meia de duração, com estradas de terra batida e um belo visual, um pequeno sinal do que iríamos encontrar pela frente. o serviço do frete foi feito por Enilson de Guiné, uma figura muito simpática que nos presenteou com uma bela foto do grupo (olhar fotos abaixo), momentos antes de iniciarmos a trilha. O frete tem que ser acertado com antecedência, não existe transporte diário de Palmeiras para Guiné.

O carro nos deixou o mais próximo possível da subida para os gerais, em um local chamado Aleixo. Iniciamos a caminhada às 10:00 horas. O tempo estava ensolarado, muito quente e com céu azul. A parte inicial da trilha é feita em um terreno plano para depois ter uma subida bem íngreme. A subida é bastante cansativa de início, até o corpo esquentar demora e o aconselhado é subir bem devagar, respirando calmamente. A subida é recompensada pelo belo visual que se encontra no topo, um mirante espetacular que mostra claramente os limites naturais do parque, montanhas que "rasgam" a terra formando uma grande barreira natural, que abriga em seu interior uma fauna e flora riquíssima.

Após descansar e tirar as devidas fotos do mirante, continuamos a trilha, que agora seguiria por um longo tempo em terreno plano, os gerais do rio preto, um grande platô por cima da montanha. A caminhada é mais longa, porém tranquila, por trilhas de fácil acesso, as vezes por terrenos pedregosos e muitas vezes por terreno encharcados. A paisagem nessa parte da trilha é simplesmente linda e a medida que se aproxima do vale do pati, as coisas vão tomando proporções gigantescas.

Por cima dos gerais corta o rio preto, local ideal para uma parada, descansar, se banhar e lanchar. Apos o descanso é preciso atravessar o rio para seguir a trilha. A travessia é tranquila, mas é preciso atenção para não escorregar nas pedras, que muitas vezes formam limos muito escorregadios. A caminhada após o rio continua em terreno plano, igual à parte anterior da trilha. Seguimos mais um bom tempo caminhando até o mirante do pati, que é um dos portais de entrada para o vale.

Para se chegar ao tão desejado destino é necessário encarar a descida do mirante e a rampa para o cruzeiro em seguida. A descida é bastante ingrime e requer bastante atenção e cautela, pois nessa hora é que mais se exige do corpo, que está mais cansado. Tomar muito cuidado com o joelho, que é o que mais sofre nas descidas. Após a parte de maior risco, atravessa-se uma ponte sobre um rio e logo se inicia uma subida bastante cansativa, uma ladeira super inclinada (a rampa para o cruzeiro). O mais complicado nessa hora é condicionar o corpo que acabou de sair de uma descida e que precisa encarar uma longa subida, essa hora "dói".

No topo é possível ter acesso a um visual incrível, tanto olhando para trás e vendo o caminho que acabamos de percorrer, como do vale ao redor. Desse ponto, é possível subir mais um pouco e chegar ao cruzeiro, de onde é possível ter uma noção melhor do visual, um 360º de pura natureza, de verde, de azul, uma energia sem igual.

Do cruzeiro descemos para o ponto anterior e seguimos a caminhada, entrando cada vez mais no vale, a caminho de nosso destino, a hospedaria de dona Raquel. O caminho por dentro do vale vai variando entre subidas e descidas, mas o visual é de tirar o folego.

Chegando na hospedaria, deixamos as mochilas nos devidos quartos e seguimos para o banho. Depois fomos conhecer um pouco mais do local e seguimos a um ponto mais alto do terreno, em outra hospedaria, também parentes de dona Raquel, um local privilegiado para ver os últimos raios de sol que entram no vale. Ficamos no local até as últimas luzes iluminarem os paredões, uma cena surreal que não se vê em qualquer lugar. Depois, esperamos o tempo passar para o jantar (almoço), mas o tempo parava de caminhar, estacionava rebelde, como que desafiando as leis naturais.

Um capitulo especial deveria ser feito só para falar da comida, um verdadeiro banquete, não só pela fartura, mas pela qualidade do alimento. A variedade de nutrientes e o sabor gostoso da refeição foi algo unânime no grupo e certeza que de todos que por lá passam. A hospedaria é conhecida pela boa comida, tanto o café da manhã, como o Jantar (imbatível no vale) que, na realidade é o almoço-jantar, pois é servido pontualmente às 19 horas da noite, horário em que os hospedes voltam da trilha, tomam banho e ficam "livres".

A noite no vale foi de céu estrelado e muito silêncio, bebemos um pouco e nos divertimos com um violão que faltavam algumas cordas, e as poucas que existiam, não afinavam. A qualidade do som não ajudou, mas nos divertirmos mesmo assim. A dormida no local é cedo e não tem como ser diferente, o corpo precisa descansar para as trilhas.

Segundo Dia - Morro do Castelo.

Dia 08/07/2018, acordamos cedo, tomamos o delicioso café da manhã e logo depois demos início a trilha para o morro do Castelo. A primeira parte da trilha é tranquila, variando entre subidas e descidas, boa parte por dentro de uma mata fechada, passando por algumas outras casas de moradores. Logo depois tem que atravessar um rio, e aí sim a trilha começa a ficar mais pesada, com uma subida bem ingrime, que muitas vezes tem que se apoiar nos troncos e nas raízes das árvores, que mais parecem degraus criados para facilitar a subida.

A Trilha do Castelo é uma caminhada cheia de surpresas e de belas paisagens. Depois de uma subida bem ingrime e cansativa, se tem acesso à entrada de uma gruta enorme, que por si só já vale pelo passeio. A boca da gruta parece se esconder entre as pedras e a vegetação, revelando-se como uma grande surpresa para os visitantes curiosos.

Ao entrar na gruta, pegamos água em uma pequena "veia" que escorria por uma pedra, já quase na escuridão da caverna. Ao atravessar a escuridão é possível chegar ao outro lado da montanha, ao sair da gruta da pra enxergar o visual do outro lado do vale, uma paisagem simplesmente surreal. "Lembrei muito da primeira vez que estive nesse local, em 2003. éramos jovens curiosos, subimos a montanha sem guia e sem saber da existência de uma gruta, quanto mais o que ela revelaria ao atravessa-lá. Na ocasião, levava comigo uma câmera analógica, que me permitiu tirar uma única foto, pois o filme acabou e não tinha levado outro para a trilha em questão, coisas da vida". Dessa vez, 16 anos depois, retorno ao local com uma câmera digital e sem poupar espaço no cartão de memória.

Para retornar para a base, em dona Raquel, era só seguir de volta pela gruta e descer a montanha pelo mesmo caminho da subida. A descida é bem ingrime e em alguns pontos é preciso bastante atenção, pois o terreno fica bem escorregadio quando ta molhado. Na parte que precisa atravessar o rio, demos uma parada para descansar e se banhar um pouco. Fomos chegar na hospedaria no final da tarde, foi o tempo de tomar um banho e relaxar vendo o pôr do sol, dessa vez de outro ponto.

Depois do pôr do sol lindíssimo, ficamos conversando e esperando, famintos, a tão sonhada hora do rango. De noite percebemos que tinha chegado vários grupos novos na hospedaria, a movimentação no local era maior, pessoas de vários lugares do Brasil e alguns estrangeiros. Ficamos conversando um pouco até dar a hora de dormir.

Terceiro Dia - Cachoeirão.

Dia 09/07/2018, terceiro dia de viagem, o combinado era acordar cedo para tomar o café da manhã, arrumar as mochilas e partir para outra hospedaria, desta vez iríamos nos acomodar na Igreja, de lá iríamos conhecer o Cachoeirão. A mudança para a outra hospedaria deixaria a nossa viagem mais tranquila para o último dia, a volta para Guiné, pois o local é o mais próximo da subida para os gerais.

Passamos na Igreja, descansamos um pouco, tomamos um café preto fresquinho, deixamos as nossas mochilas no novo quarto e seguimos rumo ao Cachoeirão. A trilha para o Cachoeirão é longa, mas é tranquila, seguindo em sua maioria em terreno plano e de fácil acesso.

O nome do local vem das várias quedas d'água que brotam de um paredão de mais ou menos (?) de altura, formando uma verdadeira cortina d'água, infelizmente não tinha chovido muito e não foi possível ver as outras quedas de água, mas mesmo assim o local guarda muita beleza e muita energia boa. A trilha exige no total de seis horas de caminhada. Chegando no mirante tudo é recompensado.

Depois de um bom tempo curtindo o visual do Cachoeirão, decidimos ir voltando para a Igreja, para não correr o risco que pegar o final da trilha sem luz, pois não estávamos preparados para isso, afinal, a trilha é longa e ainda passaríamos no rio para tomar um banho refrescante. No local onde estávamos tomando banho, apareceram um casal de raposas selvagens. A história desse casal selvagem já tinha sido contada por outro guia, seguindo eles, os animais estavam se aproximando demais dos turistas e os locais temiam a domesticação do animal ao ponto de não caçar mais e ficar se alimentando de restos de comida dos turista, então a recomendação era não dar comida e se possível afugentá-los para ficarem sempre distantes dos homens.

A noite na Igreja foi a mais fria de todas. Não sei se pela região ser mais às margens do vale, e poderia estar mais susceptível aos ventos, mas pouco importa, o clima estava dentro do previsto. O jantar foi servido na mesma hora da hospedaria passada, e nos deliciamos, pela última vez, da boa comida local. Uma fogueira foi acesa para confortar melhor a noite de frio, mas logo cedo dormimos, estavamos bem cansados.

Quarto Dia - Voltando para Salvador.

Dia 10/07/2018, último dia de viagem, acordamos cedo e ficamos conhecendo mais do local e organizando os equipamentos, esse seria o dia mais tranquilo de caminhada, por tanto, realizamos todas estas atividades, inclusive o café da manhã, sem pressa em partir.

A manhã na Igreja é diferente e peculiar, as neblinas tomam conta das montanhas e mais parecem uma pintura surrealista, o sol nascendo ao fundo da neblina tornou ainda mais mágico o momento, como é possível ver nas fotos abaixo.

Saímos da Igreja por volta das 09:40 da manhã, o dia estava ensolarado e com poucas nuvens no céu, por tanto, muito calor!!! A caminhada até o ponto da subida é bem tranquilo, caminhando com a proteção das sombras de uma vegetação alta e abundante. A subida que iríamos enfrentar é o mesmo caminho que passamos para descer a grande muralha natural do vale. A subida não é muito longa, mas é bem ingrime e exige um ritmo devagar e com bastante atenção.

A foto acima é um 180º do mirante, o local realmente é muito mágico e a energia que ele nos passa é rejuvenescedora. Ficamos um pouco no mirante descansando, admirando a paisagem e tomando um geladinho, vendido por um local de Guiné, que carrega o isopor até o local, uma forma de amenizar o calor dos turistas e fazer um dinheiro.

A caminhada pelo gerais não seria a mesma do caminho feito no primeiro dia de trilha, dessa vez iríamos pegar um caminho diferente, mas tão belo quanto o outro. Em um certo momento se chega ao rio preto, o mesmo rio que passamos no primeiro dia, atravessamos por uma ponte lindíssima e paramos ao leito do rio para descansar, lanchar e tomar banho. Escolhemos um ponto que tinha sombra e deixamos as nossas coisas em um canto, segundo a nossa guia Moniquinha, é preciso tomar cuidado nesse local "as mulas passam por cima de tudo". As mulas são guiadas por um cachorro e por uma pessoa que vem logo atrás. Elas já sabem o caminho do vale do pati, param no rio para beber água e atravessam logo depois, seguindo no ritmo delas, seguindo as trilhas levando suprimentos de Guiné para as hospedarias do Pati e trazendo o lixo não reciclável do Vale do Pati para Guiné.

A caminhada no total teve em torno de 6,5 km, da igrejinha ao Beco em Guiné, local marcado com o nosso amigo Enilson. Do Beco fomos direto para a cidade de Palmeiras, de lá iríamos esperar o horário do ônibus para Salvador, que era a noite. Dessa vez usamos da mesma estratégia e fomos para o Hi Hostel, o mesmo local que usamos como base na chegada, fechando com chave de ouro mais uma trilha na Chapada Diamantina.

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