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V Caminhada dos Umbuzeiros - BA

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Saímos de Salvador em direção a cidade de Uauá de ônibus, pela empresa Falcão Real, às 21:45h do dia 21/03/2019. São cerca de 428km de estrada, uma viagem longa, com muitas paradas no caminho. Chegamos em Uauá por volta das 06h da manhã do dia seguinte (22/03/2019), o dia estava nublado e a possibilidade de chuva era real. A notícia era de que tinha chovido forte no dia anterior e a previsão era de mais chuva para os próximos dias, um verdadeiro milagre no Sertão, que sofre tanto com a falta de água. Da rodoviária seguimos para o espaço cultural "Toque de Zabumba", local marcado como ponto de encontro dos caminhantes para o café da manhã e as primeiras tratativas para a V Caminhada dos Umbuzeiros.

 

Um pouco mais sobre a região e a Caminhada dos Umbuzeiros: (Texto retirado do "chamamento" para a V Caminhada dos Umbuzeiros 2019).

 

"A Caminhada dos Umbuzeiros é uma imersão de três dias nas paisagens da caatinga do sertão baiano. Os caminhantes trilham um percurso de 55 km, que se estende do município de Uauá -BA até Canudos-BA, percorrendo a região onde se localizava o Arraial do Belo Monte e onde ocorreu a Guerra de Canudos.

 

O ponto inicial, Uauá, foi palco do “primeiro fogo da guerra de Canudos”, ocasião em que os conselheiristas resistem ao avanço da primeira expedição militar e retornam a Belo Monte. É precisamente este trajeto que será trilhado pelos caminhantes, atravessando as fazendas São Bento, Maria Preta, Barra dos Cágados, Cocobocó , Algodões, Barra da Fortuna, Coiqui, Caipã até chegar ao povoado de Canudos Velho, situado às margens do açude de Cocorobó , onde se localizava o antigo arraial. Com isto, o caminhante tem oportunidade de conhecer a história, a natureza e a cultura da região de forma vivencial e através de encontros com as comunidades locais.

 

O projeto leva o nome da árvore sagrada do sertão, exemplo de uma natureza inteligente e adaptada ao clima semiárido, que em tupi-guarani significa “árvore que dá de beber”. Além do que, a caminhada é realizada na época da frutificação do umbuzeiro e da peregrinação anual realizada pelas catadeiras de umbu, que enveredam pela caatinga para colherem o fruto que, beneficiado, constitui importante fator de desenvolvimento econômico local.

 

Desse modo, para além de uma intervenção que reverencia a história e a cultura do povo sertanejo, a caminhada desvela o sertão também a partir do umbuzeiro como entidade encantadora e própria que, assim como o seu povo, se apresenta como símbolo de vida e resistência nestas terras áridas. Percorrer estas trilhas é uma forma de reconhecer a importância da caatinga - bioma exclusivamente brasileiro - e de sua vegetação, em especial os umbuzeiros, árvores fundamentais para a sobrevivência, economia e culturas locais. Tendo em vista os sérios padecimentos que a caatinga vem sofrendo, atravessa-la é também uma forma de conhecê-la, é denunciar sua desenfreada degradação ambiental.

 

A caminhada também apresenta relação com a Guerra de Canudos, maior conflito fratricida de nossa história, que ocorreu no sertão da Bahia entre novembro de 1896 e outubro de 1897. Foram, portanto, necessários onze meses e o envio de quatro expedições republicanas-militares (total de 50% do exército brasileiro da época) para a destruição definitiva do resistente arraial de Belo Monte. Transcorrida mais do que uma centena de anos da guerra - que como triste legado tirou a vida de aproximadamente vinte mil brasileiros - Canudos segue como ícone indiscutivelmente relacionado a resistência, religiosidade e a cultura sertanejas.

 

Sua história marcante segue inspirando as muitas produções, discussões e expressões culturais em territórios do semiárido brasileiro e no restante do país. Contudo, por muito tempo perpetuou-se um olhar estereotipado e depreciativo da história do arraial do Belo Monte e de seu líder religioso e político, Antônio Conselheiro. Reduzidos a pobreza e ao fanatismo religioso, muitas características fundamentais e interessantes sobre essa experiência social brasileira são ignoradas e deturpadas pelo discurso oficial dos “vencedores”, e Canudos segue sendo mais sobre a guerra do que sobre sua proposta comunitária. A busca por reafirmar outras narrativas sobre o episódio parte dos movimentos populares locais que ainda hoje buscam espaço para apresentar olhares distintos, partindo dos atingidos, e evidenciando as lições de resistência, organização popular e solidariedade de Canudos.

Nesse sentido, a Caminhada dos Umbuzeiros propõe um atravessamento pelos cenários reais desse inspirador episódio brasileiro, enquanto provocação de um olhar que aproxima e convida a caminhar para refletir sobre as narrativas de Canudos a partir de sua gente e sua cultura.

 

A V expedição trará como tema: “Se a Caatinga é nossa existência, seremos resistência! ”

 

A caatinga ainda e vista por muitos como uma vegetação pobre e sem vida. Ao ver uma imagem do semiárido, o leigo imagina que a vegetação está morta ou irremediavelmente seca. Esta percepção distorcida negligencia o fato de que é exatamente esta vegetação que assegura a fixação do solo, impedindo a erosão e a intensificação do processo de desertificação, já verificável em vários pontos de maior intervenção humana. Além do que, e esta vegetação que serve como fonte de alimentos para as criações de animais adaptadas a região, sobretudo os caprinos e ovinos. Os frutos desta vegetação também alimentam a biodiversidade da fauna nativa e o próprio ser humano, em especial o fruto do umbu, que na região de Canudos e Uauá é beneficiado, gerando renda para inúmeras famílias que vivem no campo.

 

O interesse da caatinga, no entanto, não se restringe apenas à região. Isto porque é uma vegetação única, contendo espécies endêmicas (como o próprio umbuzeiro, não existente em nenhuma outra parte do globo terrestre) e servindo de morada para inúmeros animais ainda pouco estudados, dado o desinteresse da comunidade acadêmica em produzir conhecimento ligado a este bioma. Neste sentido, a caatinga apresenta uma relevância mundial e as mudanças climáticas globais tendem a perturbar sistemas como este. Por isso a caatinga é a condição mesma da existência de inúmeras comunidades a ela adaptadas, bem como de toda uma biodiversidade.

 

Qualquer agressão a esta forma de existência – a caatinga – provoca a necessidade de resistência dos que dela dependem e dos que com ela aprenderam a viver.

 

Mas não só as agressões à caatinga devem provocar resistência. Historicamente, inúmeras culturas se adaptaram a este ambiente, desenvolvendo modos de viver originais, dentre os quais a comunidade de Belo Monte serve como principal fonte inspiradora. Utilizando a terra de modo comunitário, socializando os resultados da produção, aproveitando dos materiais disponíveis no entorno para a construção das casas e ferramentas, bem como das vestimentas e utensílios domésticos, Belo Monte foi, no século XIX, a principal comunidade organizada de modo alternativo a hegemonia do latifúndio.

 

Belo Monte resistiu, quanto pode, às incursões do exército com o propósito de destruir esta experiência social. A própria caatinga foi importante agente na resistência ao exército: enquanto os sertanejos usavam roupas de couro, as roupas dos soldados eram frágeis demais para os espinhos da caatinga; enquanto Antônio Conselheiro havia acumulado experiência após longos anos de caminhadas pelo semiárido, o sol e o calor eram escaldantes demais para os soldados caminhando pela primeira vez nas brenhas do sertão; enquanto os conselheiristas conheciam cada artimanha para economizar ou encontrar água, os soldados penavam com as gargantas secas.

 

A caatinga e o arraial de Belo Monte são, portanto, formas de existir, toda especiais e únicas. Nesta caminhada, convidamos os caminhantes a resistir às incursões contra a caatinga e contra as experiências comunitárias inspiradas nos conselheiristas, ao tempo em que ampliamos nosso conhecimento sobre esta vegetação e atualizamos a experiência de Belo Monte no contexto atual. Pois e com este mundo que sonhamos: um mundo em que a biodiversidade seja respeitada em sua integralidade e que os modos de vida alternativos possam florescer. Enquanto estas existências não forem legítimas, seremos resistência para defende-las."

 

 

Chegamos no espaço cultural Toque de Zabumba cedo, o que deu tempo para organizar as mochilas com calma. Aos poucos os caminhantes foram chegando, e não eram poucos, gente de todo o brasil, que aos poucos se revelavam com a aproximação. 

 

Eu já tinha estado a poucos meses na cidade de Uauá e no próprio espaço cultural Toque de Zabumba, para um trabalho fotográfico. Episódio este que me fez abrir os olhos para a região e me fez apaixonar pelo Sertão e pelo povo Sertanejo. Quando soube da caminhada dos umbuzeiros não tive dúvida, aceitei na hora o desafio e assim aconteceu. 

 

Tomamos o café da manhã servido no mesmo local, depois fomos visitar a fábrica COOPERCUC (A Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá), que fica próxima à cidade de Uauá. Na fábrica, são produzidos diversos alimentos que derivam de frutos da região, como o umbu, manga, goiaba e banana. Na fábrica tivemos a oportunidade de participar de um encontro de agricultores de várias regiões, que aproveitavam para trocar sementes de tipos diversos e distintos de vegetação. Aproveitei a oportunidade para conseguir algumas sementes de cactos, que plantei posteriormente em casa e hoje crescem a todo vapor.

 

Depois da visita à fábrica, voltamos para almoçar no espaço cultural Toque de Zabumba, e lá tivemos uma conversa séria sobre a trilha e sobre as dificuldades que estavam por vir. O tempo tinha mudado completamente e a chuva voltava a cair forte. As pessoas da organização tinham a informação de que os rios estavam subindo rápido e que alguns trechos da estrada ofereciam o risco de os carros de apoio não passarem. A decisão da reunião do grupo girava em torno de ir para a caminhada mesmo assim, com o risco de os carros de apoio não passarem, ou ficar em Uauá e mudar todo a programação da caminhada, que já estava em sua quinta edição e nunca tinha passado por essa situação, afinal, no sertão a água em abundância é de se comemorar, mas para nós era um fator de risco ficar isolado em alguma região sem um carro de apoio, que também levavam os alimentos, mochilas e equipamentos dos caminhantes. Por fim, decidimos seguir a trilha, mesmo diante dos riscos da chuva.

 

Logo depois da reunião, seguimos para um colégio da cidade, onde iríamos assistir a uma apresentação de teatro dos alunos sobre a temática - "Canudos e Antônio Conselheiro". Nada melhor para os caminhantes dos umbuzeiros reviverem um pouco da história que envolvia a região e o povo sertanejo.  

 

Após a apresentação dos alunos, seguimos caminhando para o ponto inicial da trilha, um totem marcando o local de saída. O primeiro dia de caminhada, na teoria, deveria ser tranquilo, cerca de 10km até a fazenda Maria Petra. Local marcado para montar acampamento e passar a primeira noite.

 

A caminhada começou tarde, mas alegre, mesmo com o tempo demonstrando que iria chover. Enquanto o grupo se juntava no local do totem, uma banda tocava músicas temáticas, logo depois, uma seção de poemas e cordéis, para logo em seguida iniciarmos a caminhada. As últimas luzes do dia contrastavam com as grandes nuvens escuras no céu, formando junto aos caminhantes uma bela composição. Logo a luz do dia foi embora e uma chuva fina nos acompanhou pelo resto da trilha. No caminho, tivemos que atravessar dois pontos bem alagados, com água até a cintura e leve correnteza. Devido à chuva constante, a água "brotava" de todos os lugares, escorrendo por antigos canais que permaneceram secos por anos.  Apesar da chuva e dos pontos de alagamento, a caminhada seguiu tranquila, com as pessoas alegres e se conectando cada vez mais na proposta da caminhada - conexão com a região e a mística local.

 

Chegamos por volta das 20:30h na Fazenda Maria Preta (Uauá), casa de Sr. Roque e Dona Maria Trindade. Todos montamos as barracas e tomamos o jantar, que foi uma sopa muito gostosa. Não pense que o som parou enquanto isso, a animação era constante, mesmo com as dificuldades da chuva, as histórias iam se somando, as pessoas iam se conhecendo, se identificando, o que tornava a imersão ainda mais mágica. Lembro que fui dormir tarde conversando com as pessoas da caminhada. Quando entrei na barraca restavam poucos ainda acordados, logo depois começou a chover e não parou mais. 

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Segundo Dia de caminhada

 

No dia seguinte acordamos cedo, a noite tinha sido de muita chuva, não dormi direito preocupado com as goteiras na barraca, que só aumentavam em quantidade e em constância, aquilo me preocupou, afinal, ainda teria mais uma noite, e o destino do clima era uma grande interrogação para todos. Conversando com as outras pessoas, aos poucos fui percebendo que muitas barracas também tinham molhado por dentro.

 

O dia estava nublado e a previsão de chuva continuava forte. Aos poucos os caminhantes foram arrumando as barracas e se organizando para a caminhada do dia. Após o café da manhã as pessoas se reuniram na entrada da casa para um bate papo. A oportunidade serviu para conhecer melhor os donos da casa, Sr. Roque e Dona Maria. Ambos falaram um pouco sobre a vivência no sertão, as dificuldades e os prazeres de décadas morando na região. As pessoas do sertão são muito simples, mas possuem um saber sobre a terra que vem de gerações. O encontro é um verdadeiro intercâmbio cultural.

A caminhada do segundo dia teve o seu início decretado em baixo de um umbuzeiro, que ficava perto da casa de Seu Roque e Dona Maria, nada mais justo e simbólico, mas antes de sair teve mais música regional ao vivo, poemas e cordéis. A caminhada começou por volta das 9h da manhã, a chuva tinha parado, mas o céu permanecia muito nublado, o que por um lado era positivo, pois amenizava o calor forte do sol do sertão, que é brutal para todos, ainda mais para quem não está acostumado.

 

O grupo que era grande, aos poucos foi se dispersando durante a caminhada, cada um seguindo o seu ritmo e o seu tempo. Com o decorrer da caminhada muitas pessoas foram se conhecendo e estabelecendo uma relação de amizade, o que tornava a trilha ainda mais agradável. Tinham pessoas do brasil inteiro, muitos profissionais curiosos, entre estudantes, professores, artistas, publicitários e aventureiros, um grupo bem heterogênico e de uma energia muito boa. Após quase 3 horas de caminhada já tínhamos nos deparado com muitos animas e tipos diferentes de plantas. A água da chuva que vinha caindo na região já tinha sido suficiente para mudar a "cara" da vegetação, tudo estava mais verde e propício à florir. Todo o grupo parou para descansar a beira de um rio que a muito tempo não se via tanta água correr em suas margens.

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A parada no rio foi providencial, apesar da caminhada ser tranquila, é importante reunir todo o grupo. O tempo parecia mudar a nosso favor, as nuvens estavam se dispersando e o sol voltava a brilhar forte.  Aos poucos pequenos grupos iam saindo do rio para voltar para a caminhada. Esperamos um pouco mais e seguimos a caminhada. Uma pequena distração nos fez seguir por um caminho errado, o que nos fez afastar do restante do grupo por um tempo razoável. Após caminhar por quase uma hora, com o sol já forte, desconfiamos que o caminho estava errado e decidimos voltar tudo de novo para tentar encontrar mais alguém, que havia ficado por último na parada do rio, mas ao voltar não tinha mais ninguém e só fomos encontrar o grupo de apoio depois de um bom tempinho, após "batermos cabeça" tentando descobrir onde erramos. Todos estavam bem, mas ainda havia uma boa parte para caminhar e tirar o atraso.

 

Após ter certeza do caminho, apertamos o passo e adiantamos o máximo para não atrasar a programação do grupo. No caminho paramos em algumas casas de famílias de pequenos agricultores. O povo é muito humilde, mas muito educado e receptivo, nos ofereciam água, bolo, café e o prazer de uma bela proza. No caminho decidimos com a organização que iriamos adiantar uma parte do percurso nos carros de apoio, foi assim por uma boa parte, até que fomos encontrando boa parte dos caminhantes e passamos a ir a pé até o ponto de acampamento.

 

Nesse caminho para o local do acampamento, visitamos um outro morador da região. Uma figura tímida de início, que aos poucos foi se soltando e mostrando um pouco sobre a sua vida e os seus dons. Um poeta que não sabe ler e escrever, que "esculpe" um gibão de couro com uma métrica que só com o tempo e muita habilidade para aprender.

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Após esse intercâmbio cultural, voltamos para o último trecho de caminhada do dia, em direção ao acampamento. Desse momento em diante as coisas ficaram mais intensas e a chuva voltou a cair com uma força brutal. A sorte é que no meio do caminho, antes da chuva apertar, encontramos um dos carros de apoio e foi possível deixar os equipamentos em segurança e seguimos o restante caminhando. Quando chegamos no acampamento a chuva já estava muito forte e algumas pessoas, que tinham chegado primeiro, montaram as barracas, porém poucas, o resto do pessoal se alojou em baixo de lonas e árvores para se proteger da chuva. A chuva veio acompanhada de rajadas de trovões, o que tornou os riscos mais sérios. Não estia condições de permanecer no local, a água tomou conta de tudo. A preocupação inicial passou a ser colocar em seguranças as mochilas e os equipamentos nos carros de apoio, depois organizamos o grupo e tomamos a decisão de seguir todos caminhando até a casa de um morador próximo e lá decidir o que fazer.

 

A caminhada a seguir durou em torno de uma hora e foi feita debaixo de muita chuva e muita lama. O chão de terra se transformou em lama escorregadia, tanto para as pessoas, quanto para os carros de apoio, que por diversas vezes atolaram e precisaram de ajuda para sair. Já era noite quando chegamos na casa, e foi um alívio só em ter um teto para se abrigar da chuva, da lama e do frio. A casa em questão não tinha espaço para acomodar todos os caminhantes, que se amontoavam nos espaços da casa. Foi tomada a decisão de dividir o grupo em 2, uma pequena parte ficaria nessa casa e a outra parte caminharia mais um pouco para outras duas casas.

 

Segui caminhando com o grupo para as novas acomodações. Já não chovia tanto e a distância não era longa, mas a lama escorregadia dificultou muito, e a caminhada acabou durou em torno de uma hora e meia. Por mais vezes os carros atolaram e nós mesmos, que por diversas vezes afundamos os pés na lama literalmente. O meu tênis abriu o solado e por sorte aguentou até chegar na casa. Detalhe, até então, não tinha noção de onde as minhas coisas estavam, mas só em saber que estavam bem, me dava um alívio. No final, tudo deu certo e encontrei as minhas mochilhas e pude tomar banho e vestir uma roupa seca e limpa. 

 

Quando a chuva finalmente parou, o céu abriu um pouco e revelou uma lua cheia linda, digna de cinema. O alívio de saber que iríamos dormir em um teto seguro, sem correr o risco de molhar, era reconfortante. Para muitos o contexto só reforçou a energia positiva dos caminhantes, que seguiram o tempo todo cantando, sorrindo e interagindo uns com os outros de coração aberto. A caminhada serviu também para me mostrar pessoas incríveis, muitos guardarei no coração. 

 

 

 Terceiro dia de caminhada

 

Acordamos no outro dia cedo, aos poucos fomos levantando e organizando as coisas. O dia estava ensolarado e aproveitei para lavar o tênis que estava completamente cheio de lama. Atrás da casa tinha uma cisterna grande que ajudou bastante todo o grupo (a cisterna era o nosso único ponto de água), em outros tempos não seria possível captar e armazenar tanta água, se não fosse uma política social de incentivo à construção de cisternas nas casas do sertão e de muitas outras cidades que também sofrem com a seca. Uma ideia simples que resolve o problema de água para muitas famílias. 

 

A decisão de voltar para Uauá, sem chegar e terminar a caminhada em Canudos, foi fruto de um consenso geral. Não se tratava mais de chegar a algum lugar, nunca se tratou na realidade, o que mais importa é o caminho, a jornada. O que se vive, o que se leva para casa de aprendizado, é o que mais importa. A sensação de dever cumprido era unânime.

 

Tomamos café da manhã em baixo de um umbuzeiro e depois arrumamos as mochilas nos carros de apoio. A notícia era que iríamos enfrentar alguns rios cheios no caminho. Acabei por decidir deixar a câmera em um dos carros de apoio, temendo o tempo mudar rápido e a chuva cair feio. Não foi o que aconteceu, mas também foi bom caminhar livre de peso.

 

A caminhada acabou sendo muito tranquila e energética, foi muito bonito ver o sertão verde. Atravessamos alguns rios cheios no caminho, mas foi tenso ao ver o último rio que teríamos que atravessar. Infelizmente não tenho foto desse momento, mas vai ficar na memória para o resto da vida – “A força da natureza”. A correnteza era muito forte e esperamos um pouco para ver se o rio baixava, foi o que aconteceu e fomos aos poucos atravessando. Uma pessoa por vez e sendo ajudada por voluntários, que iam e voltavam de margem em margem. Do outro lado ficamos olhando a força das águas e esperando todos atravessarem. Alguns carros esperaram o rio baixar mais para arriscar. Acabamos seguindo o restante do caminho em dois ônibus que nos esperavam para voltar para Uauá.

 

Nos dirigimos com o ônibus para o Espaço Cultural Toque de Zabumba e lá ficamos até a noite, que era a hora do ônibus de volta para Salvador. A chuva caiu forte quando anoiteceu. No ônibus, ficava a sensação de missão cumprida e felicidade em ver o sertão verde, florindo, mas com o desejo de voltar para a próxima caminhada e concluir chegando até Canudos.

 

 

 

 

 

 

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